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Banco Central realiza, nesta semana, a segunda reunião do ano do Comitê de
Política Monetária (Copom) em um cenário de muito mais incertezas devido aos
desdobramentos da nova guerra no Oriente Médio. No encontro anterior, em
janeiro, o BC sinalizou que iniciará o ciclo de cortes na taxa básica da
economia (Selic), atualmente em 15% ao ano, maior patamar em quase 20
anos. Apesar de a aposta para um corte menor nos juros, de 0,25 ponto
percentual, estar mais cada vez mais consolidada entre os analistas, a dúvida,
agora, é sobre o tamanho do ajuste e a duração do ciclo de redução dos juros,
pois ele tende a ser menor por conta do conflito armado entre Estados Unidos e
Irã há duas semanas.
Após decidir manter a taxa Selic pela 5ª reunião consecutiva, em janeiro, o
Copom considerou na ata da reunião de passada que havia "sinais mais claros" de transmissão da
política monetária na atividade, considerando suas defasagens dos juros no
atual patamar mas sinalizou "o início de um ciclo de redução
da taxa de juros", na reunião que começa amanhã e termina na quarta-feira,
coincidindo com a reunião do Fomc, comitê de política monetária do Federal
Reserve (Fed, banco central dos EUA).
Na avaliação dos analistas ouvidos pelo Correio, os dois bancos centrais
seguirão cautelosos por conta do aumento das incertezas no cenário externo e
que pressionam o petróleo e o câmbio que, juntos, impactam diretamente na
inflação. Eles reconhecem que a duração dessa nova guerra determinará o ciclo
de corte da taxa Selic, sinalizado pelo Copom pode não durar tanto quanto se
esperava. Outro consenso para essa nova Superquarta indica que o Fed manterá os
juros básicos norte-americanos no atual patamar, de 3,50% a 3,75% ao ano, na
última reunião sob a presidência de Jerome Powell.
Desde o início dos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o
petróleo disparou após o fechamento do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico. Nem
mesmo o anúncio do aumento das reservas globais do combustível ajudou a reduzir
impactos na oferta. Até sexta-feira, quando o barril do petróleo tipo Brent
encerrou o pregão negociado a US$ 103,14, a alta acumulada desde 27 de
fevereiro foi de 42%.
E, conforme dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis
(Abicom), na sexta passada, a defasagem dos preços da gasolina praticados no
mercado doméstico em relação ao negociado no mercado internacional estava em
38% considerando o barril do petróleo tipo Brent, acima de US$ 100. Enquanto
isso, a defasagem dos preços do óleo diesel estava em 62%, o que fez a
Petrobras anunciar, no mesmo dia, o primeiro reajuste de 11% no diesel vendido
para as distribuidoras. A medida foi adotada um dia após o governo zerar as
alíquotas de PIS-Cofins sobre o combustível.
Especialistas reconhecem que o cenário externo piorou para um ciclo longo de
flexibilização da política monetária, tanto que, no último boletim Focus, a
projeção para a taxa Selic voltou a ser revisada para cima na semana passada,
passando de 12% para 12,13% ao ano, em meio às perspectivas de mais um ano
eleitoral, quando o aumento dos gastos públicos também contribuem para o
aumento das pressões inflacionárias. Algumas estimativas apontam a Selic no fim
do ano em 13% anuais, como Sul América Investimentos, MB Associados e Warren
Investimentos. E vale lembrar que, para os anos seguintes, as previsões do
mercado no boletim Focus indicam uma Selic de dois dígitos até 2028, pelo
menos, sinalizando que a política monetária seguirá restritiva.
Dados divulgados pelo Instituto Brasileriro de Geografia e Estatística (IBGE),
na quinta-feira, corroboram com essa teoria, pois mostraram aceleração do do
Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação oficial, mesmo
antes do conflito no Oriente Médio. Em fevereiro, o IPCA avançou 0,37 ponto
percentual sobre a taxa de 0,33% de janeiro, para 0,70%, a maior taxa desde o
avanço de 1,31% contabilizado em fevereiro de 2025, e acumulou alta de 3,81% em
12 meses, abaixo dos 4,44% contabilizados no mesmo período encerrado no mês
anterior.
No ano passado, o IPCA encerrou o ano em 4,26% abaixo do teto da meta definida
pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 4,50%, em grande parte, devido à
forte desaceleração do dólar frente ao real, que chegou a ficar abaixo de R$
5,20 ao longo do ano devido ao tarifaço do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump e ao início de quedas dos juros básicos nos EUA. Agora, com os
ataques dos EUA ao Irã, o dólar voltou a se valorizar diante da perspectiva de
que Fed não deverá voltar a reduzir os juros tão cedo, o que ajuda a manter o
dólar mais forte frente às moedas emergentes, como o real.
Mercado doméstico
E, além disso, apesar das medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT), na quinta-feira, com objetivo de amenizar os impactos da alta do
petróleo no preço da gasolina e do diesel no mercado doméstico, como a isenção
de PIS-Cofins sobre o diesel, se o barril do petróleo seguir acima de US$ 100,
a inflação oficial poderá ficar acima do teto da meta, de 4,50%. Pelos
cálculos de Eduardo Velho, economista-chefe da Equador Investimentos, um
aumento de 20% na gasolina pode fazer com que o IPCA encerre o ano acima do
teto da meta.
De acordo com Velho, essa nova conjuntura externa vai fazer com que o BC fique
mais cauteloso na próxima reunião do Copom, que ocorre em paralelo à reunião do
comitê de política monetária do Federal Reserve, o banco central dos Estados
Unidos, e aumente a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na próxima reunião,
especialmente se o barril do petróleo persistir em torno de US$ 90 — acima das
projeções iniciais do governo para o barril estavam abaixo de US$ 70 e, na
sexta-feira, o Ministério da Fazenda, elevou a projeção para o preço médio para
US$ 73,6 bilhões, e, com isso, a previsão para o IPCA passou de 3,6% para 3,7%.
Essa nova estimativa, contudo, está mais otimista do que a mediana das
expectativas do mercado coletadas pelo Banco Central para o boletim Focus,
atualmente em 3,91%.
"Há espaço de corte de 50 pontos-base na Selic,
porque o câmbio abaixo de R$ 5,20 contribuiu para evitar uma deterioração das
expectativas do IPCA de 2026", afirma Velho. Com projeções
otimistas, ele prevê que a Selic deverá encerrar o ano em 11,75%, porque aposta
em uma acomodação no preço do barril do petróleo para US$ 70 após as eleições.
"Ainda há muitas incertezas e o câmbio pode permanecer em torno de R$
5,20. E isso será importante porque, mesmo assim, como o preço do barril do
petróleo subiu de forma acelerada, ele poderá cair da mesma maneira, lá fora,
voltando às condições anteriores ao conflito em função da oferta mundial de
petróleo, que é elevada", explica.
Analistas acreditam que o Banco Central deverá optar por uma queda mais gradual
dos juros básicos, de 0,25 ponto percentual em vez de 0,50 inicialmente
previsto, o que levará a taxa Selic para 14,75% anuais. O corte menor, contudo,
ainda não é um consenso, mas analistas reconhecem que, dado aumento de tensão
no Oriente Médio, reunião deverá ser tensa.
"Vai ser uma reunião difícil. Era para o Copom
realizar um corte de 0,50 ponto-base, sem muito drama, mas parece que a bola,
agora, está dividida entre 0,25 e 0,50 ponto-base. A grande questão é como o BC
vai ler o que está acontecendo no cenário externo e se o choque de oferta de
petróleo será temporário ou haverá uma mudança de cenário. Não acho que a
discussão será sobre cortar ou não os juros, mas o tamanho do ciclo de cortes",
afirma o economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio Leal. Apesar da
perspectiva de um ritmo mais lento no corte dos juros, Leal manteve em 12,50%
ao ano, a previsão para a taxa Selic no fim de dezembro.
Na avaliação do economista Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro
de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o contexto da próxima ata do
Copom, que será divulgada na terça-feira da próxima semana, tende a ser mais
complexo . "O cenário está mais dramático e o panorama
macroeconômico em relação à última reunião mudou muito. Mas, a princípio, o BC
não deverá recuar da decisão de começar a reduzir os juros, por razões óbvias.
O contexto é mais razoável para uma queda de 0,25 ponto percentual, e a
incerteza vai se refletir na ata e não vai dar para o Copom cravar um novo
corte na reunião seguinte", avalia Giambiagi. "Na atual
situação, os diretores do BC devem redigir uma ata mais ambígua e sem
sinalização do que vai acontecer na próxima reunião", frisa.
Avaliação dos cenários
Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, também considera que há espaço
para o corte de juros na próxima reunião do Copom, porque o Produto Interno
Bruto (PIB) está desacelerando ao apresentar crescimento de 2,5%, em 2025, e
que a inflação ficou acomodada abaixo do teto da meta, de 4,5%, encerrando o
ano passado em 4,3%.
"Tanto o produto quanto a inflação convergiram
para patamares mais baixos. Com a inflação rodando em torno de 4% para este
ano, os juros reais (descontada a inflação) ainda estão muito altos, por isso
que o BC tem falado em calibragem e não de afrouxamento monetário. A
política monetária segue apertada, então, o espaço para queda dos juros está
garantido por conta de menores desvios de inflação de PIB",
afirma. O economista reconhece que o tamanho do ciclo de afrouxamento monetário
é que está em jogo nessa reunião. "Essa instabilidade nos preços do
petróleo e no câmbio reduz a convicção no cenário e sugere que o Banco Central
seja mais cauteloso", explica.
Na avaliação de Padovani, o BC deverá começar com uma leitura de que poderia
começar o ciclo de afrouxamento monetário com uma redução de 0,25 ponto percentual
na Selic. "O tamanho do ciclo vai continuar em aberto e,
como o Banco Central diz, dependente de dados", afirmou ele,
que manteve em 12% anuais a previsão para a Selic no fim do ano. Para ele, a
cautela do BC tende a ser maior em meio ao aumento das incertezas. "A questão agora é que a leitura é que haverá
menos previsibilidade", alerta.
Apesar de serem minoria, ainda há quem ainda aposte em um corte maior, de 0,50
ponto percentual na taxa Selic. É o caso do economista-chefe do Bradesco,
Fernando Honorato, mas não descarta um corte menor, a depender dos
desdobramentos do conflito no Oriente Médio. "O ambiente volátil e a
decisão do Copom dependerão das condições de contorno vigentes no período da
reunião. Esperamos um corte de 0,50 ponto percentual, dado o enfraquecimento da
atividade e a moderação da inflação nos últimos meses, mas reconhecemos que
aumentou a probabilidade de um passo mais cauteloso por parte da autoridade
monetária", destaca ele, em relatório aos clientes.
Pelas projeções do Bradesco, o Fed manterá inalterados os juros básicos, assim
como o Banco Central Europeu (BCE), que também tem reunião esta semana, mas
ressalta que, devido às pressões inflacionárias de aumento de preços do gás
natural, principalmente, "novas altas (nos juros) podem ocorrer nas
próximas reuniões".
Luis Felipe Vital, chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública da Warren
Investimentos, também manteve em 0,50 ponto percentual a aposta de corte da
taxa Selic nesse começo do processo de calibragem da política monetária.
"No entanto, não descartamos a possibilidade de o Banco Central adotar uma
postura mais conservadora diante dos riscos provenientes do cenário externo e
iniciar a calibragem com um corte de menor magnitude", destaca, em
relatório.
Na avaliação dele, a taxa Selic foi colocada em um nível "inquestionavelmente restritivo"
e mantida por um período bastante prolongado com efeitos observados na economia
em diversos canais, "mesmo considerando a
resiliência do setor de serviços e do mercado de trabalho".
As projeções da Warren para a inflação fechada em 2026 variam entre 4,30% e
4,50%, e, por conta disso, a instituição prevê a taxa Selic em 13% ao ano, uma
vez que o BC deve interromper os cortes mais cedo. "Ao mesmo tempo,
poderiam indicar a possibilidade de uma interrupção no ciclo de cortes ou de
uma calibragem de menor magnitude caso o cenário evoluir de forma
desfavorável", complementa Vital, ao comentar sobre o que esperar do
comunicado.
Fonte: correiobraziliense
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